PROJETO:
AS MULHERES DE VÉU PRETO QUE ENCANTARAM A BAHIA DO SÉCULO XVII – A HISTÓRIA DAS IRMÃS CLARISSAS DO DESTERRO ATRAVÉS DOS MANUSCRITOS HISTÓRICOS

Este projeto foi financiado pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, através do edital 001/2020, da Fundação Pedro Calmon, através do Prêmio Fundação Pedro Calmon, Programa Aldir Blanc Bahia, Lei Aldir Blanc, de autoria da restauradora Perla Andrade Peñailillo. 

A referida proposta recebeu o apoio do Ateliê de Restauração Memória e Arte, cedendo o espaço para o trabalho e a expertise na recuperação do acervo documental, assim como fez com outros dois proponentes, em um consórcio de rede de ajuda a restauradores sem experiência em execução de projetos.

A documentação objeto deste projeto faz parte de um imenso fundo documental pertencente ao acervo do Convento de Santa Clara do Desterro. São manuscritos que narram não apenas o cotidiano da instituição, mas também da Província da Bahia desde 1669 (século XVII), isto significa que são mais de 350 anos de história sobre a antiga Salvador. Foram 28 documentos e os objetivos do projeto eram inventariar, higienizar, restaurar, transcrever, digitalizar e acondicionar todos os documentos selecionados. Todas as ações foram cumpridas.

Nesses documentos há autorias diversas, indicadas por assinaturas, rubricas e sinais públicos.

 

Assim, entre os scriptores vemos abadessas, procuradores, juízes, capitães, mestres de navegação, oficiais, etc. A documentação aqui trabalhada é tanto ascendente (de pessoa física para autoridade) quanto descendente (de autoridade para pessoa física). Os documentos datam de 1654 a 1952, e foram produzidos em dois tipos de tinta – a metaloácida e a orgânica. Todos são documentos originais e únicos (até onde se sabe). Até o momento desconhecem-se cópias, transcrições ou edições anteriores a que ora se apresenta, e acreditamos serem pequenas as chances de haver já que este é um acervo eclesiástico, portanto, de acesso restrito. No entanto, não sabemos se especificamente esses mesmos manuscritos já teriam sido acessados por outros pesquisadores e utilizados como fonte de pesquisa anteriormente ao nosso trabalho. Nada encontramos a este respeito.

A originalidade de cada um dos documentos foi constatada através de análises diplomático-paleográficas que consideraram a materialidade do suporte – em sua totalidade, papel: como tipo de papel utilizado, presença de marca d’água e contramarca (típicos do período da escrita); presença de fórmulas e estruturas diplomáticas, elementos de validação, tipos caligráficos, características linguísticas dos idiomas utilizados (na sua maioria os documentos foram produzidos em português, mas alguns apresentam trechos em castelhano); presença frequente de abreviaturas muito usuais para os tipos documentais e em seus respectivos períodos.

 

Em relação ao estado de conservação, os manuscritos aqui trabalhados foram selecionados, dentre tantos outros que compõem o acervo, exatamente por estarem em avançado estado de degradação, muito frágeis, já apresentando perda de suporte, com rasgos e dobras. São visíveis as migração de tinta entre os fólios e a oxidação da tinta metaloácida, provocando corrosão do papel. São perceptíveis também desbotamentos das orgânicas. Ataques biológicos por insetos e fungos também são evidentes, além da degradação causada por condições ambientais (umidade e calor), a chamada biodegradação documental. 

Em função do estado em que se encontrava a documentação quando a ela tivemos acesso, a conservação preventiva já não era mais possível. Percebemos que seria indispensável tanto a ação de “alteração do suporte” (consertos de rasgos) quanto de “alterabilidade” (como o uso de enxerto, onde modificamos a aparência do papel). Portanto, a intervenção realizada foi invasiva, pois foi necessário fazer banhos químicos (naqueles suportes que passaram no teste de solubilidade), colocar enxertos, fazer velaturas. Tais ações foram indispensáveis para a preservação do maior bem contido sobre o suporte: a informação.

Nos documentos, essas intervenções foram diferenciadas: em alguns havia alta concentração de tinta devida aos movimentos da pena durante o ato de escrita; em outros, havia derramamento de tinta, instabilidade do pigmento, de gordura das mãos, manchas de umidade, carimbos, selos, adesivos (em uma tentativa de restauro anterior). Todos eles foram restaurados com papel japonês maruishi 9gr, utilizando a técnica minimalista. 

Como forma de dar acesso ao conteúdo integral dos documentos e no intuito de conservar as suas características diplomáticas e linguísticas de todos eles, optamos por oferecer ao leitor transcrições semidiplomáticas. 

Esses documentos selecionados para fazer parte do citado prêmio contam os 164 primeiros anos da fundação do Convento do Desterro, que tem 343 anos desde a sua criação. É inquestionável a importância desse acervo, que faz parte da memória histórica da América Portuguesa, e não representa apenas nosso passado, mas também nosso futuro dentro da trajetória histórica do Brasil, pois a Bahia é um dos Estados no país que mais protege seu patrimônio documental. 

A técnica utilizada no restauro foi a minimalista, interferindo o mínimo possível na documentação, utilizando apenas papel japonês maruishi cream 9 e enxertos onde foi extremamente necessário. 

As transcrições dos documentos seguiram alguns critérios:

 

  • A grafia dos documentos originais foi mantida na íntegra, mesmo nos casos evidentes de lapso do scriptor; 

  • As abreviaturas foram desenvolvidas, sempre que possível sua decodificação, apresentando-se as partes omitidas no original em itálico;

  • As abreviaturas que não puderem ser identificadas, foram mantidas conforme original;

  • Foram respeitadas as fronteiras entre palavras, separando-se o que estava unido no original e unindo-se o que está separado conforme a vigência gramatical atual;

  • As fórmulas iniciais e finais de cada texto, quando possível, foram mantidas na sua disposição original;

  • Os danos no suporte que impossibilitaram a leitura foram indicados como [...];

  • As leituras feitas a partir de conjecturas foram incluídas na transcrição entre colchetes;

  • Aquilo que não foi possível ler devido por falta de decifração da(s) letra(s), foi indicado por [†].

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