PROJETO:
RECUPERAÇÃO DA MEMÓRIA CULTURA NEGRA DA BAHIA EM TRÊS OBRAS DE MANUEL QUERINO

Este projeto foi financiado pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, através do edital 001/2020, da Fundação Pedro Calmon, através do Prêmio Fundação Pedro Calmon, Programa Aldir Blanc Bahia, Lei Aldir Blanc, de autoria da restauradora Isadora Salignac de Sousa Mazzoni. 

A referida proposta recebeu o apoio do Ateliê de Restauração Memória e Arte, que cedeu o espaço para o trabalho e a expertise na recuperação do acervo em papel, assim como fez com outros dois proponentes, em um consórcio de rede de ajuda a restauradores sem experiência em execução de projetos. E como foi o primeiro edital cultural vencido por eles, resolvemos auxiliá-los e apoiá-los.

Os livros objeto deste projeto fazem parte do acervo de autores baianos da Biblioteca Monsenhor Manoel de Aquino Barbosa, pertencente à Irmandade do Santíssimo Sacramento e de Nossa Senhora da Conceição da Praia. 

O projeto “Recuperação da Memória Cultural Negra da Bahia em três obras de Manuel Querino” tem como objetivos restaurar e digitalizar 3 obras de Manuel Querino – O colono preto como factor da civilização brasileira (1918), Costumes africanos no Brasil (1938) e A Bahia de outrora (1955). São publicações que estão fora de circulação do mercado editorial, encontrados apenas em sebos virtuais e físicos, mas são referências para as áreas de história social, política e cultura baiana e estavam necessitando de recuperação urgente. Saliente-se que o autor tem quase 100 anos de falecido, e isto significa que já se tornaram obras públicas, não mais incidindo direitos autorais, e por isso foi possível a execução deste projeto. 

Manuel Querino, ao lado de Teodoro Sampaio, é um dos mais importantes intelectuais negros da sociedade baiana, e muito contribuiu para a formação ética e cultural não apenas da Bahia, mas do país. E para que a memória brasileira não exclua mais um expoente negro, uma vez que hoje é pouco lembrado pelo público em geral, embora de extrema importância, é que essa proposta tornou-se importante, pois se sabe que parte do desconhecimento e desaparecimento de um autor se deve a não disponibilização mais de suas obras, textos importantes para a história da cultura do país.

Manuel Raimundo Querino nasceu no 28/07/1851, Santo Amaro, BA. Ainda na infância, perdeu os pais em uma epidemia em 1855, e sua educação foi confiada a um tutor, Manoel Correia Garcia. Tendo completado apenas o curso primário, Manuel Querino, aos 17 anos (1868), alistou-se como recruta, viajando pelos sertões de Pernambuco e Piauí, onde se uniu a um contingente que se destinava ao Paraguai. Todavia, por questões de saúde, não foi escolhido. 

Mudou-se para o Rio de Janeiro, foi trabalhar no escritório do quartel, em 1870 foi promovido a Cabo de Esquadra, e logo depois deu baixa no serviço militar, após quase dois anos. Retornou à Bahia e trabalhou como pintor e decorador, estudou francês e aprofundou-se na língua portuguesa. Ajudou a fundar o Liceu de Artes e Ofícios e matriculou-se na Escola de Belas Artes, formando-se em 1882; logo depois entrou para o curso de arquitetura. Foi lente de desenho geométrico no Liceu de Artes e Ofícios e no Colégio dos Órfãos de São Joaquim. Foi sócio da Sociedade Protectora dos Desvalidos, uma instituição mutualista, fundada em 1848, por ex-escravos com trabalho de ganho. 

Interessou-se por política, foi republicano, liberal e abolicionista. Com o grupo da Sociedade Libertadora Sete de Setembro assinou o manifesto republicano de 1870. Fundou os periódicos A Provincia e O Trabalho", onde defendeu os seus ideais republicanos e abolicionistas, e para a Gazeta da Tarde escreveu uma série de artigos sobre a extinção do elemento servil. Por ter sido um defensor das causas trabalhistas e operárias, foi eleito para a Câmara Municipal de Salvador. Mais tarde exerceu o cargo de 3° Oficial da Secretaria da Agricultura, passando por muitos constrangimentos: foi consecutivamente preterido em todas as ocasiões para receber promoção apenas por ser negro. Faleceu em Salvador, no dia 14 de fevereiro de 1923, vítima da malária, era uma quarta-feira de cinzas. Querino casou-se com Ceciliana do Espírito Santo Querino, com quem teve quatro filhos.

Passou a dedicar seu tempo aos estudos históricos, em particular à pesquisa e ao registro das contribuições dos africanos ao crescimento do Brasil, mostrando a seus irmãos de cor a contribuição vital que deram ao Brasil, e sempre lembrava aos brasileiros da raça branca a dívida que tinham com os africanos e os afro-brasileiros. 

Manuel Querino publicou nove obras, entre elas as três inseridas neste projeto: O colono preto como factor da civilização brasileira (1918), Costumes africanos no Brasil (1938) e A Bahia de outrora (1955). Morando na comunidade de descendência africana, ele conhecia os hábitos, aspirações e frustrações dos afro-brasileiros, por isso sua intimidade e interesse no tema. 

Em 2021, comemora-se 170 anos do nascimento de Manuel Querino e 97 anos de seu falecimento. Em vida, embora tivesse contribuído muito com a cultura brasileira, foi esquecido durante muitas décadas, desconhecido pelo grande público, embora represente um dos grandes nomes da nossa história, reconhecido pelos pesquisadores e intelectuais. É preciso fazer justiça ao maior líder da Bahia no movimento em favor do reconhecimento da contribuição da cultura negra no país. 

O primeiro passo para a reconstrução da memória de Querino é a disponibilização gratuita de suas obras, e a execução deste projeto tornou-se mais relevante porque o seu livro O colono preto como factor da civilização brasileira (1918) tem mais de 100 anos de publicado. Sem termos conhecimento de quem foram nossos representantes do passado e como uma sociedade se comportou diante deles, é difícil compreendermos as consequências no presente e no futuro. Então, a memória social não pode ser esquecida e a única forma de assegurar a sua existência é mantê-la, resgatá-la e protegê-la tendo em vista sua permanência identitária. 

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